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Público alvo é a mãe. Salve tricolores, Nunca foi tão fácil ganhar. Jamais um campeão foi tão anunciado. Vencer como vencemos, com tamanha antecipação, dá ao campeonato ares de barbada. E foi o que vimos, uma barbada de Papai Noel. Creio que se essa história de pontos corridos continuar por muito tempo, ou ganharemos ano sim, ano também ou nos colocarão como uma espécie de convidado especial dos Brasileiros: disputa, ganha, mas não leva. Como todos tricolores vivo ou mortos, amo vencer. Não há elixir mais poderoso para a alma dum boleiro que as grandes conquistas. São elas que nos enchem de orgulho, cobrem nossa camisa de glórias, as arquibancadas de torcedores e forram os cofres do clube. Nada mal, diria o filósofo, nada mal. Mas eu vejo um mal. Melhor: eu vi o mal, num programa esportivo, trajando terno azul e gravata vermelha, com o cabelo coberto de gel, atrás de um laptop sobre uma mesa de design arrojado com alguns porta-retratos numa sala moderna, cercada por aparelhos de ar condicionado. Em baixo dessa imagem, os créditos anunciavam a função daquele terno engomadíssimo: marketing do São Paulo Futebol Clube. O terno alinhado dizia sorrindo que o São Paulo tinha um plano de marketing para conquistar torcedores e chegou e delimitar um público alvo e um prazo para sermos a maior torcida do Brasil. Amigos perdoem-me a sinceridade, mas Deus me livre! Minha alma tricolor sentiu um calafrio profundo vendo aquele terno falar do futuro de minha amada camisa, das pessoas que as vestirão, como se ela, como se as cores que amo e sigo desde sempre, fossem um produto exposto numa vitrine. Não gostei de ser chamado de público alvo, tampouco vir a pertencer a maior torcida do país. Eu não sou são paulino pelo tamanho de nossa torcida ou pelo tricolor ser um produto com diferenciais. Sou um tricolor hereditário que a cada partida, faz bombar em meu sangue os mesmas vibrações de meu pai, de meu irmão, de meu tio e primos, de meu saudoso avô, de meus amigos de arquibancada, copo e cruz que vestem as minhas cores, que amam o meu time. Eu não sou público alvo! Sou um torcedor, sou um tricolor amante da nobre arte da bola, orgulhoso de ostentar a bandeira são paulina, nas vitórias ou nas derrotas, faça chuva ou faça sol, no Japão ou em Mogi Mirim. Sei que o futebol moderno pouco ou nenhum espaço oferece aos que não pensam mercadologicamente. Sei também que torço para um dos cubes mais bem estruturados em termos de marketing do Brasil – e quem sabe, do mundo. Mas sinto-me desconfortável ver um terno que hoje é azul mas amanhã poderá ser preto e depois amarelo e depois verde, falar sobre o futuro do meu time. Um terno que jamais pisou numa arquibancada, que jamais tomou um porre pra esquecer uma derrota ou soltou rojões intermináveis numa conquista. Um terno que vê o futebol de uma planilha do Excel. Um terno que no lugar do coração infinito de torcedor, tem uma fria máquina de calcular. Escrito por Alexei às 23h13
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